2009/ Jan - Revista Projeto - Entrevista


Sérgio Athié
- Arquiteto formado pela FAU/Mackenzie em 1981, é sócio do escritório Athié Wohnrath Associados rojetos e Gerenciamento, que possui aproximadamente 200 funcionários em suas unidades de São Paulo e Rio de Janeiro

01Quais os aspectos primordiais que devem ser considerados no desenvolvimento de projetos para ambientes corporativos?

O principal é entender qual a demanda do cliente. É fundamental que o projeto retrate aquilo que o cliente tem como expectativa. Muitas vezes ele não consegue defini-Ia claramente e a nossa missão é procurar compreendê-la e agregar valor à expectativa do cliente. Para isso, temos ferramentas que o ajudam a externa r o que ele espera como resultado. É comum que o cliente peça uma coisa e na verdade queira outra. Temos recursos, como a apresentação de material fotográfico, que permitem ao cliente entender de que ele precisa realmente. Há vários exemplos de clientes que depois de verem a  presentação acabam mudando o briefing. Isso não envolve somente resultados de projeto. Há aspectos de tecnologia, de sustentabilidade, de normatização, índices de iluminação, ergonomia, elementos que estão envolvidos e que ele pode não requisitar porque desconhece o assunto.

02 Seus critérios para a escolha de fornecedores consideram quesitos relacionados à

sustentabilidade dos produtos especificados?

Atualmente, 100% dos nossos projetos consideram quesitos de sustentabilidade na medida do possível. Ao que eu saiba, é nosso o primeiro projeto de interiores certificado pelo Leed na América Latina. Em todos os trabalhos atendemos quesitos que contam para a certificação e usamos  como luminárias eficientes, sensores de presença, torneiras com fechamento  automático, interruptores independentes, iluminação setorizada, cadeiras feitas com material reciclado e 100% recicláveis. Usamos muitas transparências e evitamos salas fechadas, que impedem a luz natural e o contato com o exterior. As madeiras que usamos são sempre certificadas, reencaminhamos materiais descartados para novos usos.

03 Tomando o feedback de seus clientes como referencial, quais os segmentos de produtos para interiores de escritórios que melhor correspondem às necessidades do mercado? E quais os segmentos que menos atendem às expectativas dos clientes?

De modo geral, o mercado tem atendido de forma muito competente às necessidades dos clientes. Talvez o único item que deixa um pouco a desejar nessa nova situação seja o custo. Mas em produto, qualidade, ergonomia e flexibilidade de  daptação, nosso mercado  evoluiu muito. Em mobiliário, assentos, iluminação, por exemplo, hoje existe uma gama grande de produtos, alinhados com coisas  que são feitas no exterior. Muitas vezes, clientes estrangeiros que têm por padrão usar determinado produto importado se sentem confortáveis para usar o fornecedor nacionalTemos utilizado muitas cadeiras importadas porque elas têm o valor  agregado de design e o cliente entende de design de qualidade e opta por um produto mais sofisticado que às vezes está numa faixa de custo competitiva com o produto nacional. Mas tudo depende da especificação e para isso você precisa ser claro quando diz ao fabricante o que espera. Consultores, na medida do possível, também são importantes.
U
m consultor de acústica por exemplo, vai dizer qual é a composição  interna da diviria, como ela deve ser implantada.

 04 O que formas os fornecedores de itens para interiores de escritórios podem melhorar o

atendimento às necessidades dos arquitetos?

Temos recebido um atendimento bastante ágil, até porque temos aqui um programa de homologação de fornecedores - com cerca de 300 empresas - e, pelo fato de estarmos buscando a ISO 9.000, temos que trazer para esse processo todos que caminham conosco. Mas, independentemente do produto final, o que nós e o cliente esperamos é serviços. Essa é a grande diferenciação das empresas: serviços, garantias, assistência técnica, o tempo que o fornecedor leva para nos atender num orçamento e depois o tempo que leva para fazer a implantação na obra.
05 A maioria dos clientes compreende as necessidades e intenções de projeto? E possível conciliar os interesses do cliente, em termos de custos, com as necessidades dos usuários de móveis e equipamentos?

Essa é a nossa missão. Se o cliente não compreender, é uma falha de projeto, inadmissível. Então o cliente sempre sabe qual é a intenção de projeto, porque temos a obrigação de deixar isso claro para ele. O cliente tem que se ver retratado naquele projeto.

Senão, é porque houve erro de compreensão no briefing. Normalmente ele tem que perceber que nós conseguimos captar

o que ele queria transmitir como imagem corporativa. Essa questão da imagem não é importante só para o mercado, muitas

vezes o mais importante é aquilo que ele vai transmitir para os colaboradores dele. Há clientes que não recebem público

externo, mas têm um escritório bacana. Com relação a custos é a mesma coisa: se não entendemos o quanto o cliente quer gastar, é porque não entendemos o cliente. Cabe a nós buscar a melhor relação custo/benefício. Existem

aspectos funcionais, operacionais  e tecnológicos que devem ser atendidos e sobrepujam a parte estética. Se precisar enxugar algo, vamos eliminar um material mais  sofisticado, mas vamos atender às premissas de ergonomia,  das normas técnicas. E se ainda assim não der, seremos obrigados a dizer ao cliente que não conseguimos fazer aquilo que ele espera com aquele orçamento.

 06 Vivemos recentemente uma fase de crescimento econômico, o que se traduziu em maior volume de projetos para a maioria dos escritórios de arquitetura. A crise atual já está trazendo  consequências no seu dia-a-dia? Quais suas expectativas para 2009?

Dizer que não há crise não dá, porque ela está aí. Mas temos de ser otimistas, porque ficar reclamando não nos ajuda em

nada, nem ajuda nossos clientes. Temos que ver a crise junto com os clientes. Já surgiram no escritório novos projetos depois que tudo isso começou. Muitas vezes os orçamentos são distintos e vamos ter que nos adaptar, porque o cliente tem o objetivo de mudança. Talvez ele não gaste agora o que imaginava e deixe isso para daqui a três anos. A criatividade é para nós, arquitetos, o jeito de debelar a crise. Além disso, a crise gera oportunidades, como projetos que vão preparar as empresas para reduzir custos. O cliente está começando a ver que esses itens de sustentabilidade podem significar um investimento inicial maior, mas trarão economia por todo o tempo em que ele estiver ocupando aquele espaço. Essa não é a primeira crise e não será a última .

 

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