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A arquitetura e as pandemias

A arquitetura e as pandemias

Por Beatriz Pereira de Almeida

Hoje muito se fala e se projeta sobre um futuro incerto, cheio de mudanças, de novas possibilidade de espaços e interações sociais. Mentes criativas borbulham e ideias começam a emergir, sendo a maioria em direção a um desenvolvimento acelerado de inúmeras tecnologias que nos poupem o contato físico; campainhas com higienizadores de mãos, hotéis que têm o celular como chave de acesso aos quartos, portas automatizadas, elevadores ativados por voz já nem são mais novidade, imagine o que vem por aí. São momentos como este que estamos vivendo que impulsionam a sociedade a se reorganizar e transformam a nossa a relação com o espaço.

Fato é que não estamos passando por isso pela primeira vez e, certamente não será a última. Momentos de epidemia, de doenças infecciosas sempre moldaram e transformaram a arquitetura, os espaços urbanos e a nossa vida social. O legado dos séculos XIX e XX com as pandemias da cólera, tuberculose e gripe espanhola mudaram o rumo da arquitetura e espaços como conhecemos hoje. Entre 1810 e 1815, agravada pela superlotação e condições de vida imunda, a tuberculose foi a causa de mais de 25% das mortes na cidade de Nova York.

Surgem os sanatórios no final do século: instituições com rigorosos protocolos de higiene, ampla exposição à luz solar e ao ar fresco abrigavam os enfermos. Estes ambientes clínicos, inspiraram o modernismo.

O modernismo arquitetônico, linguagem predominante do design das décadas de 1920 a 1970, tem como premissa a pureza da forma, geometria precisa e austera, materiais modernos e uma rejeição à ornamentação. As superfícies limpas e lisas da arquitetura desta época ofereciam um anestésico para doenças e traumas. Arquitetos modernistas, como Alvar Aalto, projetaram esses ambientes curativos como limpos, fisicamente e simbolicamente, de doenças e poluição. Le Corbusier estimulou as pessoas a despirem suas casas de lixo desnecessário, eliminar tapetes e móveis pesados ​​e manter o chão e as paredes limpas.

O mobiliário modernista também refletia essas preocupações. O pó alojado em elementos decorativos era um inimigo da higiene a ser erradicado a todo custo. O design minimalista substituiu a madeira esculpida e os estofados, espaços que poderiam abrigar poeira contendo bacilos e se tornar vetores de doenças. Ao invés disso, os designers usaram materiais leves e laváveis ​​com formas simplificadas. Michael Thonet usava madeira curvada, Aalto usava madeira compensada dobrada e Marcel Breuer e Mies van der Rohe usavam aço tubular. Facilmente transportados para a limpeza, esses móveis privavam poeira e insetos de esconderijos no escuro.

Terraços, varandas e telhados planos são elementos comuns na arquitetura modernista. Além de seu apelo estético, esses espaços incorporavam preocupações com os efeitos curativos da luz, do ar e da natureza.

O uso de azulejos nas paredes e armários embutidos, também são heranças deste movimento de facilitar a limpeza doméstica, incluindo a criação dos lavabos, que surgiram com a necessidade de manter a higienização das visitas logo na entrada e longe da área intima da casa.

A sociedade do nosso tempo já se manifestava antes mesmo do COVID-19, arquitetos e designer já nos provocavam com novas leituras de espaços e interações sociais questionando a sustentabilidade, o consumismo desenfreado, nossa relação com a natureza e o futuro que estamos deixando para as próximas gerações.

Começamos um novo movimento. Alguns já estão chamando de new essentialism, ou o novo essencialismo.

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