A Ecologia Organizacional e o espaço como negócio

Data

24 de setembro de 2018

Claudia Andrade, Diretora de Arquitetura na Athié Wohnrath, aborda neste artigo questões sobre a Ecologia Organizacional e o espaço como negócio, de forma que o ambiente de trabalho seja fluido para atender as diversas atividades praticadas no escritório, ao mesmo tempo em que deve ser humano para se tornar um ambiente mais produtivo.

Os ecossistemas se organizam de maneiras sutis e complexas a fim de garantirem sua sustentabilidade, nos quais todos os membros estão interligados e são interdependentes, de modo que cada um possa entender a necessidade do outro para atingir um bem comum no qual ambos co-evoluem.

Além disso, FLEXIBILIDADE e DIVERSIDADE conferem elasticidade a essas comunidades. A falta de flexibilidade se manifesta como tensão e a tensão prolongada é nociva e destrutiva para qualquer sistema. Já a diversidade só será uma vantagem estratégica se houver uma comunidade realmente vibrante, sustentada por uma teia de relações.

Ao analisar os sistemas ecológicos, observa-se o quanto eles podem ser empregáveis em outros campos de atividade como nas empresas, constituindo-se em valiosas lições para revitalizá-las neste início de século repleto de incertezas.

As mudanças nas relações de trabalho; a demanda por mão de obra especializada, gerada pelo entendimento de que o capital intelectual é fator diferencial de competitividade; a velocidade das mudanças dos sistemas tecnológicos alterando, dia a dia, a noção de espaço e tempo; e a imprevisibilidade dos mercados globais têm levado as empresas a reescreverem suas regras de atuação e a repensarem suas estratégias de gestão, de modo a criarem uma plataforma integrada de negócios, na qual o ambiente de trabalho é parte integrante e fator crítico de sucesso, devendo ser considerado como um elemento facilitador do processo do trabalho, em vez de simplesmente um suporte para a estrutura hierárquica organizacional.

Por isso, o ambiente de trabalho precisa ser fluído para atender as diferentes formas de atividades existentes no escritório. Deve ser confortável para atender as diferentes exigências quanto à concentração e à comunicação e deve ser agradável e humano para que se torne um ambiente mais produtivo.

A meta de uma empresa, seus valores e imagem são comunicados por meio de seu espaço físico através de uma “linguagem silenciosa” que influencia o comportamento das pessoas, envia mensagens de diferentes formas para seus usuários e seus visitantes, determina formas de realização do trabalho, comunica valores e contribui para a produtividade. Da mesma forma, sofre influências das mais variadas, fruto de limitações físicas e dimensionais; da atividade de negócio e do porte da empresa; do perfil das pessoas e do mercado em que opera. Ou seja, o ambiente de trabalho tem sempre uma mensagem a passar.

Quando alguém caminha pela primeira vez em um ambiente, o que primeiro é transmitido é a sua cultura organizacional, ou o conjunto de valores, crenças e significados (regras de condutas, estrutura social, modelos de relacionamentos, procedimentos, rotinas, hábitos, rituais e mitos) a serem absorvidos e comunicados por todos de modo que se compreenda o passado da empresa e reforce o seu compromisso com o futuro.

A cultura organizacional é considerada, portanto, “o código genético das organizações”, onde estão definidas as condições ou regras básicas que uma empresa inventa, descobre ou desenvolve para aprender a conviver e a solucionar os problemas de adaptabilidade externa e integração interna.

Para tanto, é necessário saber responder às pressões externas advindas de conjunturas socioeconômicas e políticas, e identificar internamente as atividades e comportamentos-chave que suportem a estratégia do negócio de forma integrada e que irão favorecer a maior colaboração entre os diversos grupos que, por sua vez, necessitam de espaços que permitam a alocação das ferramentas e a realização das atividades de forma adequada.

Dependendo do porte da organização, pode-se ter uma ideia de quantas variações e subculturas, dentro de subculturas, podem existir. Organizações mais maduras delineiam, de forma cautelosa e compreensiva, a sua cultura organizacional, algumas vezes para armazenar experiências valiosas e saber lidar com diversas situações, ou para determinar as necessidades de mudanças. Outras divulgam e comunicam uma imagem que não corresponde a sua prática, criando uma dissociação prejudicial tanto para a sua comunidade quanto para o seu mercado.

É comum encontrar empresas que dizem valorizar o ser humano em sua integridade e que, no entanto, estimulam o trabalho em excesso, dificultam as pausas para férias, privilegiam a competição excessiva em vez da colaboração e disponibilizam ambientes de trabalho inconsistentes com as tarefas ali realizadas.

É comum também encontrar empresas que se dizem comprometidas com o futuro, inovadoras, porém com espaços físicos anacrônicos: ambientes padronizados, rígidos, densos, monocromáticos, típicos do século passado.

Não é uma ilusão pensar que o ambiente de trabalho pode moldar comportamentos; porém, sacrificar a produtividade e o bem-estar dos funcionários é a opção para se economizar custos imobiliários e operacionais?

É possível encontrar o equilíbrio certo entre metas tão conflitantes como a eficiência nos custos, flexibilidade, coerência entre os valores culturais corporativos, as práticas e o desempenho dos funcionários?

São perguntas de difíceis respostas e que, certamente, dependerão do contexto. No entanto, do ponto de vista do design, estabelecer uma conexão entre metas organizacionais e o ambiente de trabalho é um fator de sucesso.

Determinar qual tipo de comportamento irá suportar ou viabilizar a realização dessas metas é outro fator e, por fim, mas não menos importante, determinar quais atributos de qualidade do espaço físico irão melhor suportar ou estimular esses comportamentos encerra uma progressão que demonstra que as intenções, metas e objetivos de negócios de uma organização, vista por meio de sua cultura, devem direcionar as políticas e estratégias de organização do espaço físico.

Modelos diferentes de organização emergem a cada dia diferindo em estilo, conteúdo, estratégias e, principalmente, na forma de tratar suas bases de sustentação: as pessoas, com suas necessidades, desejos e expectativas; a comunidade, formada a partir da convivência social desses indivíduos; o seu ambiente de trabalho, onde as atividades são realizadas e as pessoas se integram e se conectam; a informação, como insumo para o conhecimento e base para a tomada de decisão; e o negócio em si, com suas metas e suas estratégias de mercado.

Tratar essas diferentes variáveis como as propriedades essenciais que formam a totalidade das corporações, constitui-se no princípio fundamental da ecologia organizacional, cujo todo, haja o que houver, será sempre muito maior do que a soma de suas partes.