Entendendo o Vale do Silício

Data

18 de setembro de 2018

Para muitos autores, o Vale do Silício está para a Revolução Digital o que Florença foi para o Renascimento ou Londres foi para a Revolução Industrial.

Paulo Homem de Mello, Head de Inovação da Athié Wohnrath, compartilha neste artigo insights e lições não só para compreendermos o momento atual, mas também para sermos verdadeiramente inovadores nesta necessária transformação digital do nosso setor.

ENTENDENDO O VALE DO SILÍCIO

Muitos têm me perguntado e curiosos querem saber como foram minhas viagens e o que aprendi no Vale do Silício. São muitos Insights e lições aprendidas, mas neste primeiro artigo vou “começar do começo” e explorar um pouco das razões do por que o Vale é o Vale. Por que HP, Intel, Google, Apple, Tesla, Uber, Netflix, Twitter, E-bay, Pay-Pal, Linkedln e a própria internet nasceram lá e não em outros lugares? Por que tantos novos modelos de negócio, tecnologias, empresas e ideias escaláveis globalmente surgiram naquele local tornando-a a região “mais inovadora do mundo”?

Mas antes, para quem não é familiar com o tema, é importante entender os ingredientes fundamentais para inovar. E estamos falando aqui de Inovação transformadora, ou usando a palavra da moda, inovação disruptiva, a que quebra paradigmas que rompe com as formas conhecidas e põe em cheque as “boas práticas”. É deste tipo de inovação que muitos estão famintos hoje, todos estão com “FOMO” (desculpe o trocadilho, mas não resisti… Americanos cunham siglas para tudo, ou seja, “Fear Of Missing Out” ou “medo de ficar de fora”). Este sentimento é comum hoje em dia, pois estamos diante de uma velocidade de transformação inédita, que reedita modelos, redefine estruturas e, via de regra, ultrapassa nossa capacidade individual de entendimento.

Como bem disse Artur Tacla, sócio da Corall: “Os modelos organizacionais atuais criados nos séculos passados estão obsoletos e não mais cumprem suas funções. As escolas nos distanciam de inventividade; as religiões nos distanciam do Divino; os partidos nos distanciam da cidadania e as empresas nos distanciam de nosso propósito”. E é neste contexto histórico que emerge o Vale do Silício, região que inventou o chip para computadores, a informática, a internet e o smartphone. Local que sempre acolheu “forasteiros de todo o mundo”, que é a maior porta americana para Asiáticos da mesma forma que Miami é para Latino-americanos e que congrega todas as culturas, sexualidades e credos. É evidente que a questão é complexa e que inúmeros fatores explicam e contribuem para tamanha geração de conhecimento e riqueza. Felipe Lamounier e Maurício Benvenutti, sócios da StartSe, me ofereceram três ingredientes fundamentais: REBELDIA, DIVERSIDADE e CAPITAL. Aos quais eu complementaria com mais dois cruciais, INFRAESTRUTURA e EDUCAÇÃO.

REBELDIA é o fator que rompe a inércia, é a capacidade e liberdade de pensar fora da caixa, de questionar, de se ser criativo, empreendedor e não se conformar com padrões pré-estabelecidos. Já DIVERSIDADE se traduz em uma visão multicultural, um mix verdadeiramente globalizado, diverso e que cria soluções e tecnologias que não reconhecem fronteiras. O CAPITAL pode parecer óbvio, mas deve ser entendido como atração de capital abundante, principalmente de um tipo específico, o chamado capital de risco (O Vale recebe 50% de todo volume de capital de risco dos Estados Unidos, equivalente a mais de 25% do volume mundial). Este busca retornos como toda forma de capital, mas sua natureza é essencialmente ativa. O investidor é muito presente, atuante e envolvido com a proposta do negócio, com sua estratégia e potencial de gerar valor e impacto no mercado. Como INFRAESTRUTURA, vejo o sistema legal desenhado para fomentar o empreendedorismo sem depender de ajuda governamental. Aliás, o estado pouco participou neste processo de construção do Vale. Tudo isso somado a um sistema de telecomunicações de alta velocidade sempre de última geração. E finalmente o quinto, que não poderia deixar de ser EDUCAÇÃO, representada por Stanford e Berkeley, centros de pesquisa entre os top-10 globais que são a “alma do Vale” e recebem estudantes de todo mundo, acolhem pesquisadores de classe mundial e forjam empreendedores ávidos por criar novos negócios.

A improvável mescla destes cinco componentes em altas dosagens explica este lugar único, que é para a Revolução Digital o que Florença foi para o Renascimento ou Londres foi para a Revolução Industrial. Compreender estas questões estruturantes é inspirador para melhor endereçarmos nossas estratégias e foco, aprendendo e nos engajando neste processo de transformação digital, mas, acima de tudo, compreendendo que o elemento humano, sua criatividade, repertório cultural, capacidade de adaptação e de resolver problemas complexos continuarão a ganhar relevância para sermos verdadeiramente inovadores não no Vale, mas sim em nossas cidades.

Paulo Homem de Mello

maio.2018